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Cada um no seu quadrinho

O caso da adoção do álbum em quadrinhos “Dez na área, Um na banheira e Ninguém no gol”, há poucos dias pelo governo paulista, para crianças do terceiro ano do Ensino Fundamental, desencadeou uma intensa polêmica com discursos fora do lugar, tanto do governo quanto da mídia em geral e revelou uma enorme trapalhada por parte daqueles que dirigem a educação no Estado de São Paulo.


A polêmica criada em torno do livro adotado para crianças provocou novamente discursos politicamente incorretos sobre as HQs e despertaram velhos preconceitos, assim como posturas ultrapassadas diante do fato, algo que marcou bastante as décadas de 1940 e 1950 do século XX, quando as HQs enfrentaram uma terrível onda de censura, um verdadeiro tsunami, chegando inclusive a serem queimadas em praça pública.


Por isso, o caso preocupa, chama atenção e pode parecer coincidência, mas na última semana abordei o assunto comemorando o fato das HQs terem conquistado também o espaço escolar e uma política de governo que leva os quadrinhos para sala de aula, através da seleção de obras que contemplam o formato e a linguagem dos quadrinhos, pois repito a leitura de gibis promove o crescimento intelectual do educando.


Entretanto, em São Paulo o que ocorreu foi uma grande trapalhada, pois o livro em quadrinhos adotado não é destinado ao público infantil, na verdade o livro é indicado para o público adulto, por que as HQs se dirigem a todas as faixas-etárias, possuem públicos específicos de leitores entre crianças, jovens e adultos. A ideia, de que o gibi é apenas para a criança é um erro; quem assim pensa desconhece completamente a trajetória histórica dos quadrinhos, sua produção, importância enquanto mídia artística e cultural e sua extraordinária repercussão em todo o mundo.


Desconhecer o universo dos quadrinhos e suas peculiaridades atrapalha muito na hora de selecionar um tipo de texto para o uso no Ensino Fundamental, por exemplo, e foi exatamente o que aconteceu em São Paulo, uma tremenda trapalhada. As HQs, não só podem como devem ser utilizadas em qualquer nível de ensino na escola como recomenda oficialmente o próprio Ministério da Educação (MEC), através da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e mais recentemente os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Porém, há de se ter pelo menos bom senso (já que falta conhecimento), para adequar determinado tipo de texto, à faixa-etária correspondente.


Assim, recolher o livro que obviamente não é adequado a esse público foi a atitude mais sensata. No entanto, tudo que se viu e se leu na mídia nos últimos dias, sobre o fato, bem como a enxurrada de declarações errôneas de várias autoridades, denunciam a necessidade de se compreender o universo dos quadrinhos, sua linguagem, formatos, público alvo e a diversidade em vários aspectos que caracteriza essa forma de mídia. Reacender agora a chama do preconceito contra as HQs, não. Essa não. Essa história não está no gibi.


Artigo publicado no Jornal Meio Norte
09 de junho de 2009 / Teresina – PI
ANGELY COSTA CRUZ Bacharel em Biblioteconomia – UESPI / PII
Especialista em Leitura e Produção Textual – IFET/ PI
Coordenadora do Colégio "Gláucia Costa"