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Sem medo de ousar

Para aqueles que esperavam uma trama semelhante às outras e com todos os clichês de uma telenovela, não para de surpreender-se com “A Favorita”, atual novela das vinte horas. A história vem desafiando o público e o próprio folhetim, ao adotar, inicialmente, a dubiedade de caráter como fio condutor para as protagonistas e fazer a grande revelação (quem é a vilã, afinal?), ainda no início da novela, num capítulo que mais pareceu filme de longa metragem.


Ao fazer esta opção, o autor na verdade apresenta uma mudança de roteiro que busca revitalizar o gênero; se terá seguidores ou não, não se sabe o certo mesmo é que a novela tomou de assalto o telespectador. Mas seu autor João Emanuel Carneiro, um experiente roteirista de cinema, não teve medo de ousar e desafiar a audiência.


A estratégia é uma experimentação na TV, mas não é nova, mudanças de roteiro em telenovelas costumam acontecer e em alguns casos, passam a ditar um novo estilo na teledramaturgia. Um bom exemplo é “O Rebu” (1974 - 75), de Bráulio Pedroso, onde toda a trama de cento e doze capítulos se passava em dois dias; a história girava em torno de um crime ocorrido numa festa e a ambigüidade residia no fato de que ao mesmo tempo em que não se sabia quem matou, também não se sabia quem morreu, ou seja, uma dose de ousadia ainda maior.


O mesmo autor também fora responsável no final da década de sessenta por uma inovação de texto que revolucionou a televisão no Brasil. “Beto Rockfeller” (1968), que levou para a TV a linguagem e o cenário do cotidiano, além de apresentar um anti-herói como protagonista. Um choque de realidade que provocou a ruptura com o gênero dramalhão, capa e espada, fazendo surgir um novo estilo para a teledramaturgia brasileira.


A partir daí, a ficção televisiva se torna verdadeiramente nacional e mudanças não param de acontecer; em “Pecado Capital”, de 1976, Janete Clair matou o protagonista; em 1989 os vilões de Gilberto Braga se deram muito bem ao final de “Vale Tudo” e mais recentemente nas tramas de Manoel Carlos, é possível observar a ausência do grande vilão e a clara preferência em valorizar os tipos comuns, para ficar somente nestes exemplos.


Desse modo, mudanças no roteiro podem até assustar, pois elas implicam na construção de personagens sem maniqueísmos e na quebra de expectativas, mas também são responsáveis por manter vigor e o sucesso de um gênero há tanto tempo no ar. A surpreendente troca de papéis, entre Patrícia Pilar (conhecida atriz por suas personagens do bem) e Cláudia Raia (somente lembrada como uma atriz para humor e a comédia), enriquece a ficção no horário nobre e revela que há muito a ser explorado no gênero televisivo.


Artigo publicado no Jornal Meio Norte
02 de novembro de 2008 / Teresina – PI
ANGELY COSTA CRUZ
Bacharel em Biblioteconomia – UESPI / PII
Especialista em Leitura e Produção Textual – CEFET/ PI
Coordenadora do Colégio "Gláucia Costa"