Colégio "Glaucia Costa" - 26 anos batendo forte no coração da cidade
 
 
 
  


Velho Chico, Rei Luís e o São João


Lili Cavalcanti *


“Quero ver soltar foguete, quero ver soltar balão/Até no céu é festa, é noite de São João/No terreiro tem fogueira, tem sanfona no salão/Vão furar a bananeira, prá fazer adivinhação...” Foi assim, nesse clima de arraial bem tradicional e verdadeiro, que as personagens de “Velho Chico”, atual novela das nove celebraram as festas juninas, as brincadeiras, as promessas, as quadrilhas, as bandas de pífanos, o triângulo, a sanfona, a zabumba. Um São João, colorido, um arrasta pé animado que tomou de emoção os moradores da ficção e os telespectadores, que acompanham a cinematográfica narrativa de Benedito Rui Barbosa na TV.


O público foi surpreendido, com uma bela sequência de cenas que valorizou a originalidade das festas juninas, em meio à polêmica da contratação de bandas pelo poder público, no país. Assim, o autor também fez sua crítica, ao destacar durante os preparativos da festa, que aquele seria um São João de verdade e não uma festa de contratos superfaturados, ao som do chamado “forró de plástico”. Por isso, na fictícia Grotas de São Francisco, cidade banhada pela mansidão das águas do Velho Chico, a festa junina de raiz na sua forma original, ao som de Luís Gonzaga e música regional, se impôs até à ira de um raivoso Coronel Saruê (Antônio Fagundes), que não resistiu e se rendeu ao ver sua amada Iolanda (Christiane Torloni), cantando: “Olha pro céu, meu amor/Vê como ele está lindo/Olha praquele balão multicor/Como no céu vai sumindo/Foi numa noite igual a esta/Que tu me deste o coração/O céu estava assim em festa/Pois era noite de São João...”


Uma emoção, que segue encantando gerações, Luís Gonzaga embala o coração nordestino com sua música, seus causos, sua poesia... É tão forte sua influência nos festejos de celebração a Santo Antônio, São Pedro e São João, que antes dele essa festa era somente de cânticos aos santos. Quando, Luís Gonzaga despertou para cantar o Nordeste e suas raízes, inclusive adotando a indumentária do vaqueiro em suas apresentações, ele criou definitivamente o cancioneiro da região, o ritmo nordestino, a música junina, da forma como a conhecemos hoje, construindo assim nossa identidade musical e cultural. Assim, se tornou e se imortalizou Rei do Baião.


Seu reverenciado repertório e sua inesquecível sanfona ecoam por toda a região e contagiam festas e celebrações juninas por toda parte; de Caruaru a Campina Grande, do Piauí ao Sergipe, do Ceará ao Rio Grande do Norte, nas Alagoas, na Bahia e também no Maranhão, mas com uma diferença: o São João dos maranhenses é um espetáculo a parte, com uma rica diversidade de grupos folclóricos, que festejam o boi, num evento cultural dos mais surpreendentes da região. Lá o rei Luís do sertão aplaudiria de pé o encanto e a beleza das tradições ludovicenses. No Piauí, o Rei do Baião recebeu uma emocionante homenagem: o projeto “Cantata Gonzaguiana”, que reuniu a Orquestra Sinfônica de Teresina e João Cláudio Moreno, que faz o rei renascer com todo seu talento.


Desse modo, neste período os nordestinos fazem um pacto com a alegria e espantam a crise para festejar São João, pois indústrias e fábricas de roupas, sapatos, ou instrumentos musicais da região dobram sua produção e fazem das festas juninas, o mais tradicional evento do ano. Afinal, o São João é considerado o Natal dos nordestinos. É quando muitos compram a roupa nova, ou o sapato novo e saem a se divertir nos arraiais, no ritmo do forró, ao som do disco de Luís, numa festa arretada daquelas! Hoje, é verdade a animação está restrita aos grandes eventos, às escolas, que são responsáveis pela preservação da tradição, ou aos limites do terreiro de casa, onde a família e os amigos podem se reunir, pois infelizmente aquela festa na rua, com fogueiras acesas se tornou algo raro, por causa da crescente violência.


No entanto, e apesar desse fato as tradições juninas seguem com o sabor da emoção e das deliciosas comidas típicas também. E como resistir? É canjica, pamonha, milho, bolo de milho, bolo de macaxeira, pé-de-moleque, paçoca, batata doce, baião de dois, mingau de milho, amendoim, abóbora bejú, cuscuz, enfim. Se não existe arraial sem o Rei do Baião, também não pode faltar milho na festa de São João! O milho é o rei da cozinha típica nordestina, símbolo da fartura e da celebração junina. Luís Gonzaga, com sua genialidade mostrou ao país nossos traços culturais, e o milho ganhou lugar de destaque no São João e na música do Rei do Baião. “Eu plantei meu milho todo no dia de São José/Se me ajuda a providência, vamos ter milho à grané/Vou coiê pelos meus caico, vinte espiga em cada pé/Pelos caico eu vou coiê vinte espiga em cada pé/Ai São João, São João do Carneirinho...” Por isso, aquele São João autêntico, ao som de Gonzaga, contagia a todos, até os mais insensíveis. Até mesmo, um tempestuoso Coronel Saruê!


*Professora -Bibliotecária - Escritora - Pós-Graduação em Literatura, Estudos Culturais e outras Linguagens - UESPI