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O drama das nove

Enquanto empresários e executivos das maiores empresas de TV do mundo se reúnem no Rio de Janeiro, na Central Globo de Produção, o PROJAC, para uma série de debates sobre o futuro da TV, a anfitriã, o principal canal de TV aberta no país, se encontra neste momento, diante de um dilema jamais visto ao longo de seus, ora festejados cinquenta anos: o fracasso retumbante de “Babilônia”, atual novela das nove, do trio de autores Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, que enfrenta desde sua estreia forte rejeição do público.


O horário mais nobre da TV, portanto, anda sob fogo cruzado e vem perdendo algumas vezes até, para a atual novela das sete, “I Love Paraisopólis”, que é realmente uma boa história e tem as características de uma atração para esse horário. No entanto, guardando-se as devidas proporções, o que faz a trama de Alcides Nogueira e Mário Teixeira fazer bonito no Ibope não são apenas seus próprios méritos, mas principalmente o descompasso da narrativa de “Babilônia” e um conjunto de fatores negativos que cercam a trama das nove, com direito até à sugestão de boicote da bancada evangélica no Congresso e tudo.


Na verdade “Babilônia” tentou percorrer caminhos arriscados na narrativa de ficção para a TV (pelo menos neste horário), ao mostrar realidade demais, vilanias ao extremo, relações amorais e temas tabus, ou seja, essa alta voltagem fez parte do público deixar o sofá, ou mudar de canal, fazendo a festa da concorrência. Com a rejeição no ar, mudanças foram feitas no roteiro, personagens foram modificados e seguiram outra trajetória, mas a humilhação diária (como o próprio Gilberto Braga, se referiu a seu drama) persiste, pois a novela não encontrou nenhuma sintonia com o publico, nem mesmo o casal de protagonistas decolou, enfim.


Apesar do elenco estelar, e da novela tratar de temas bastante atuais, como corrupção, relações de gênero ou preconceito, a trama não conquistou a empatia do telespectador. O certo é que, a recepção negativa à novela apressou seu fim e revelou que a falta de um ingrediente, a emoção tumultuou o processo de construção da sua narrativa. O encontro entre representantes de TVs do mundo inteiro, recepcionado neste momento no Brasil pela Rede Globo, busca debater temáticas em todas as áreas, questões que mobilizam a televisão mundial, entre elas os novos caminhos para a teledramaturgia e a narrativa de ficção na TV. O que se espera de uma telenovela, é uma boa história, uma boa narrativa, o modo de narrar uma história pode conquistar ou afastar o público, daí o fracasso de “Babilônia” e o admirável sucesso da reprise de “O Rei do Gado” (1996), no “Vale a Pena Ver de Novo”, porque o combustível de uma novela é o melodrama, é a emoção. Porém, o baixo desempenho de “Babilônia” não abala o prestígio e a força do gênero telenovela, já consolidado no país e que, inclusive passou a receber tratamento científico por parte de pesquisadores brasileiros.


Em 1992, foi criado em São Paulo, o Núcleo de Pesquisa em Telenovelas (NPTN), da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, primeiro grupo acadêmico do mundo formado com o objetivo de pesquisar e documentar a produção de telenovela. Segundo a pesquisadora, Maria Lourdes Motter, a grande conquista do Núcleo foi legitimar a telenovela como objeto, um fenômeno digno de pesquisa científica, pois, continua a pesquisadora, a produção de telenovelas no Brasil apresenta peculiaridades e diferenças marcantes da telenovela mexicana, por exemplo, ou de outros países, mostrando uma acentuada qualidade e sofisticação em seu produto final, sendo hoje exportada para grande parte do mundo. Assim caro leitor, aguarde a próxima atração. João Emanuel Carneiro está chegando para pôr fim ao drama.


LILI CAVALCANTI
(PSEUDÔNIMO DE ANGELY COSTA CRUZ – ESCRITORA – PROFESSORA E BIBLIOTECÁRIA DO COLÉGIO “GLÁUCIA COSTA”
PUBLICADO EM: 30/06/2015 – JORNAL MEIO NORTE (Teresina/ PI)