Colégio "Glaucia Costa" - 26 anos batendo forte no coração da cidade
 
 
 
  


A ilha da fantasia

“O avião! O avião!”, gritava “Tatoo”, (Hervé Villechaize / 1943-1993), anunciando com um sino que os visitantes estavam chegando. Ele, um querido e simpático anão recepcionava junto a seu patrão, o senhor “Roarke” (Ricardo Montalbán / 1920-2009), os convidados do luxuoso resort tropical, um lugar onde todos os desejos – ou quase todos – poderiam ser realizados; uma ilha paradisíaca que a cada episódio reservava uma aventura diferente a seus visitantes. Era “A Ilha da Fantasia”, famosa série de TV, que alcançou grande sucesso entre os anos setenta e oitenta.


A frase de Tatoo, que iniciou esta crônica, também marcava o início da série na TV e ficou na memória dos fãs do seriado. Mas, ao que parece a ilha da fantasia pode ter saltado da ficção para a realidade, em Teresina.


É isso mesmo caro leitor. A ilha em questão é a Câmara Municipal de Teresina, e lá a fantasia anda fazendo a festa.


A apresentação de um projeto, que propõe a entrega de um Título de Cidadão Teresinense, ao deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), causou o repúdio de diversas entidades identificadas com a defesa dos direitos humanos e de orientação sexual na cidade, assim como da sociedade de modo geral. Afinal, qual a razão para tamanha deferência? Qual a generosa contribuição que o nobre deputado federal por São Paulo, trouxe aos teresinenses? Até onde se sabe nenhuma, muito pelo contrário.


Na verdade, sua postura enquanto político se revela desastrosa, na medida em que, reforça preconceitos, defende deliberados ataques aos direitos humanos e tem sua atuação marcada por explícitas manifestações homofóbicas.


Além disso, em 2013, quando foi presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, foi intensamente contestado em todo o país por milhares de pessoas, inclusive em Teresina. Então, onde está a coerência dos senhores vereadores em conceder um título de cidadania a essa personalidade? Não há nenhuma lógica, mas um despropósito, o que mostra o quanto falta sintonia entre a sociedade e seus representantes, ou seja, a Câmara Municipal assim, se assemelha a uma ilha, a ilha da fantasia, um lugar distante, onde não se ouve a voz das ruas.


Por isso, é preciso entender que o Legislativo Municipal não pode se render a interesses de determinados grupos sociais, mas intervir com ações ou projetos positivos que privilegiem a coletividade, como um todo.


Será que faltam personalidades, públicas ou anônimas na cidade para serem homenageadas com tal honraria? Não.


Não deve faltar, porque há muita gente boa por aqui, que veio de longe, para trabalhar por Teresina e aprendeu a amar a cidade, como sua, de coração. O que está faltando mesmo é atenção do Legislativo, para a sociedade. É perceber o quanto a cidade precisa de iniciativas que lhe beneficiem, e não de atitudes que promovam o confronto com os diversos grupos sociais. É bom que se entenda, que a sociedade contemporânea não aceita posturas preconceituosas, de exclusão ou de negação a direitos garantidos, sob qualquer pretexto e exige que, o respeito à diversidade se concretize por meio de pautas e ações positivas.


Portanto, basta de reforçar polêmicas (e até homenagear), figuras que reproduzem comportamentos agressivos e preconceituosos contra a sociedade. Não precisamos conceder honraria ao senhor deputado. Não precisamos de mais Felicianos! Caso contrário, o Legislativo Municipal, vai se tornar mesmo aquela ilha da fantasia do seriado de TV, mas neste caso cercada de preconceitos por todos os lados, com uma visão deturpada da realidade e cada vez mais longe da sociedade. Assim, basta de hipocrisia (ou de “hipocrisismo”, como se dizia em ‘Saramandaia”). A entrega desse título é um insulto ao bom senso, a inteligência e a compreensão dos teresinenses.


LILI CAVALCANTI
(PSEUDÔNIMO DE ANGELY COSTA CRUZ – ESCRITORA – PROFESSORA E BIBLIOTECÁRIA DO COLÉGIO “GLÁUCIA COSTA”
PUBLICADO EM: 02/04/2015 – JORNAL MEIO NORTE (Teresina/ PI)